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KIM PHUC: UM EXEMPLO DE SUPERAÇÃO. Leia a entrevista e reavalie a forma de pensar sobre seus problemas.

14 de outubro de 2012

 Sabe aquela a menina da foto correndo das bombas na guerra do Vietnã? Por mais inacreditável que possa parecer, ela esteve em Florianópolis nesta semana, palestrou em dois eventos (um deles na Unisul) e deu entrevistas sobre sua impressionante história de vida, como superou a dor, como aprendeu a perdoar, e do trabalho atual que faz atualmente pelo mundo disseminando o amor e a paz.

 Confesso que eu, mesmo acostumado a lidar com fortes emoções, fiquei com um nó na garganta e me emocionei demais. (muitos que estavam lá, saíram chorando e tocados profundamente).

 As palavras de Kim Phúc emocionam pela simplicidade, pela serenidade, e pela voz pura e doce.

 Leia a entrevista abaixo e reavalie a forma de pensar sobre seus problemas.

 

Marcucci: como foi sua infância antes da guerra no Vietnã?

Kim: Eu cresci no Vietnã do Sul, sempre rindo, brincando com meus amigos e vivendo uma infância feliz. Minha mãe era uma cozinheira e fazia coisas muito gostosas. Eu viva muito bem como todos em minha cidade e tínhamos uma vida simples, mas muito feliz.

 

Jornalista Cilene Macedo e Kim Phuc

Kim: Ainda hoje dói muito olhar para esta fotografia. Infelizmente fiquei famosa por esta foto e levei muito tempo para me livrar do estigma da “menina da foto da guerra”. Um fator muito positivo em minha vida foi que o fotografo Nick Ut e o jornalista Christopher Wain após a foto, viram que eu estava lá agonizando de dor, e me levaram ao hospital. Sou grata por salvarem minha vida.

Mas mesmo assim, não é fácil viver com uma herança emocional e física tão pesada.

 

Marcucci: como foi sua recuperação ao longo dos anos seguintes?

 Kim: assim que começou a guerra e as quatro bombas começaram a cair em minha cidade e mais precisamente em nossa casa, logo pensei que ia morrer na hora e tive meu corpo muito queimado, mais precisamente 85% dele.

 O medo era iminente e eu não parava de chorar. Eu tinha apenas nove anos e as sensações de estar no meio daquele fogo queimando foi algo que não desejo a ninguém.

Eu não me lembro, mas me contam que fiquei inconsciente durante 15 dias em Sygon, no hospital de queimados. E sei que sobrevivi por um milagre, já fiz 17 cirurgias para reconstrução do meu corpo e eu agradeço aos médicos até hoje.

 

Marcucci: e em relação ao seu processo de cura emocional?

Kim: Bom. Perguntei-me muito tempo porque eu não morri se eu estava no meio daquele fogo todo e tantos morreram? Como pode ter acontecido isso comigo?

Mesmo assim, esta experiência que aconteceu comigo foi me deixando mais preparada para outros desafios que tive que enfrentar em minha vida.

Em virtude dos traumas, eu sofri durante muito tempo de asma, diabetes, enxaquecas, múltiplas alergias e minha pele queimada pelo napalm (nome da bomba utilizada pelos norte-americanos) nunca mais se recuperará.

Em 1984 eu estava na Alemanha e numa das cirurgias, mais especificamente para reconstruir meu pescoço, precisei fazer muitas sessões de exercícios. Acho que a persistência, a disciplina e a força de vontade me fizeram seguir adiante. Herdei isso de minha mãe e falo com ela todos os dias.

Roberto Kovalic e Leandro Marcucci

 

Marcucci: você já estudou medicina, literatura inglesa e espanhola e é Doutora em quatro universidades. Você atribui esse ímpeto e gosto pelo conhecimento desde pequena?

Kim: Bom. Após a guerra, nossa casa foi destruída totalmente e não tínhamos mais nada, mas fui abençoada porque tínhamos uma família e trabalhamos juntos para reconstruir. Dessa forma, percebi que alguns pilares são fundamentais na vida: família, amor, educação, perdão e liberdade.

Quando eu saí do hospital eu queria ser médica e fui aceita na faculdade de medicina do Vietnam, mas o governo de meu país tentou me controlar e me usar como símbolo da guerra. Eu havia virado um símbolo e meu sonho de ser médica, teve que ser realizado em outro país para devolver aos outros, o que eu havia recebido.

Então fui estudar medicina em Cuba e mudei meus cursos para inglês e espanhol. Eu adorava ir pra escola e quando eu fui ferida, eu sentia muita falta dos professores e colegas de aula. Eu realmente precisava disso para continuar minha vida e apagar de certa forma, o que aconteceu comigo.

Marcucci: como foi o encontro emocionante com o soldado que jogou as bombas e como você conseguiu perdoa-lo?

Kim: Com meu corpo todo queimado eu vivia me perguntando: como eu posso perdoar meus inimigos e aqueles que me machucaram?

Fiquei durante muito tempo amargurada, magoada, com raiva, e você pode imaginar como eu estava por dentro? Precisei esvaziar meus sentimentos negativos aos poucos e me encher de novas emoções com felicidade, compaixão, paciência e com perdão.

Foi possível perdoar, mas não esquecer. Não esquecer justamente, para que isso não ocorra mais com outras pessoas e principalmente, que eu consiga ajudar mais as crianças de todo o mundo, principalmente as vítimas de guerras.

Com a prática, todos os dias, eu comecei a colocar os nomes dos meus inimigos em todas as minhas orações e aos poucos fui perdoando até não sentir mais raiva.

Mas para curar mesmo o meu coração, precisei de amor e do poder de cura que Deus nos apresenta, e percebi que isso só acontece quando estamos abertos a aprender a amar.

 

Marcucci: qual a sua mensagem para nós que não passamos pelo que você passou?

Kim: Aprendi com tudo isso, que precisamos arriscar um pouco mais nessa vida, pois ela passa de uma forma muito rápida. Vi que a lição mais difícil de todas é a do perdão.  

Ter liberdade é uma benção e por isso que valorizo muito a liberdade, algo que vocês têm no Brasil. Hoje moro no Canadá, um país livre, e após seis anos de espera, como cidadã canadense.

Posso dizer que, como embaixadora da boa vontade da Unesco, aquela menininha não está mais correndo, agora ela voa. Atravessei o fogo e sei que não é necessário enfrentar uma guerra para sentir emoções de magoa, raiva, amargura, afinal, se não estivermos conectados com Deus e conosco mesmo, será impossível que isso aconteça.

E que possamos experimentar algo bonito para nós…

* Atualmente Kim Phuc preside a Kim Foundation, e ajuda milhares de crianças com apoio psicológico, remédios e cadeiras de rodas em vários países que estão em guerra. Ela vive com seus dois filhos no Canadá e se converteu ao Cristianismo.

** A Guerra do Vietnã foi um conflito armado que aconteceu no Sudeste Asiático entre 1959 e 1975, o mais longo depois da Segunda Guerra Mundial. A República do Vietnã (Vietnã do Sul) e os Estados Unidos entraram em guerra com a República Democrática do Vietnã, que teve apoio logístico da China, Coreia do Norte e principalmente da União Soviética.

 *** Foram jogadas sobre o Vietnã mais toneladas de bombas do que todas as lançadas durante a 2ª Guerra Mundial, além de experiências com armas químicas e bacteriológicas.



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