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Piratas
03 de Abril de 2012

Piratas

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Venho acompanhando alguns movimentos na comunicação, e esses movimentos me intrigam.

Vamos lá:

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Durante o Midia SC, evento que aconteceu em outubro de 2011, assisti a uma conferência do Eurides Terence, que é uma das mentes brilhantes que temos no mercado catarinense, quando ele discorreu sobre macrotendências na comunicação.

Assumindo que ele está certo, e normalmente está, faço eu a reflexão de que será muito difícil para as futuras gerações escaparem de alguns poucos modelos de comportamento, se quiserem estar “inseridos” no mundo. Conectados, intensos, inquietos, afinal “tudo muda muito rápido, o que vale hoje não vale amanhã” e ao mesmo tempo, socialmente responsáveis, ambientalmente neutros, dopadamente felizes…

O que o Eurides trouxe de luz sobre os rumos da indústria de comunicação, revela um espelho de Alice, onde o jogo de xadrez fantástico é uma simbiose de causa e efeito entre quem faz a comunicação e quem a consome, que no fundo, cada vez mais, são as mesmas pessoas, resultado da multiplicação dos blogs e das redes sociais. É o prosumer, termo criado pelo Alvin Toffler e resgatado pela Casaleggio Associati no viral Prometeus.

Isso é bom.

E é terrível, também.

Porque pode ter o efeito colateral, como o músico Sting escreveu em sua já clássica Sincronicity II, de o círculo vicioso de comunicação compactadora de comportamentos nos colocar ”packed like lemmings into shiny metal boxes, contestants in a suicidal race”.

Ou seja, podemos virar aqueles lemingues, que, diz a lenda, andam em fila até o abismo onde coletivamente se suicidam e onde morrem nossas individualidades.

Exagero?

Todo dia percebo movimentos do tipo “seja legal” nas redes sociais.

Marcas e mais marcas desviam o foco de sua comunicação das virtudes de seus produtos e serviços e dos benefícios que podem de fato proporcionar para seu cliente, para expor o quanto são bacaninhas, desenvolvem programas sociais, preservam o ambiente e ainda por cima são super cool. Chegam ao superlativo de dizer “vamos fazer juntos”…

Acontece que existe um pirata dentro de mim.

Mesmo depois de décadas aprendendo a ser civilizado, politicamente correto e limpinho, não se iluda, ele está lá.

E não estamos, eu e o pirata, sozinhos, não.

Tenho certeza que muita gente digna, regrada e acima de qualquer suspeita também tem dentro de si um bucaneiro feroz, de tapa-olho, espada e pistola, escondidinho, só esperando a hora certa de sair e começar a pilhagem.

E é o meu pirata interno que grunhe, a cada tentativa de ligar para centrais de atendimento de cartões, programas de milhagem e fidelidade, operadoras de telefonia e TV por assinatura, tão legalzonas nos seus comerciais e sites e constatar que a última coisa que eles querem é resolver o meu problema. Sem generalizar, mas já generalizando.

E já que é essa mesma galerinha que se faz de boazinha na comunicação, que produz em Bangladesh e no Camboja usando criancinhas, que exporta lixo hospitalar para país de terceiro mundo, que perfura petróleo sem responsabilidade no mar do Brasil e do Golfo do México, tira a grana de velhinhos em empréstimos consignados a juro de agiota, entre zilhões de outras sacanagens, vale outro recado da palestra do Eurides: a comunicação, cada vez mais, será fundamentada na verdade.

E a comunicação corporativa que fazemos, iludidos pelas boas intenções, tem se afastado muito da verdade, vendendo uma realidade alternativa à la Matrix, que inevitavelmente terá uma reação violenta, logo ou tarde, mas terá. Aliás, já está acontecendo, com iniciativas como o Anonymous, WikiLeaks, a Primavera Árabe, Occupy Wall Street, que são porra-loucas, insensatas, foras-da-lei e quando saem deixam tudo sujo.

Exatamente como os piratas.

Mas, de vez em quando, são os piratas que fazem sentido.

Garr!

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