
Cidadãos, dirigentes de instituições e autoridades que deveriam zelar por cada gota assistem passivamente à destruição dos recursos naturais. No Brasil, a perda média nas redes urbanas chega a 40%. Depois do oxigênio, a água é o recurso mais importante para todos os seres vivos. É essencial na agricultura, que consome cerca de 70% de toda a água doce utilizável do planeta. Isso corresponde a “7,2 quatrilhões de litros por ano ou toda a descarga do Rio Amazonas durante 640 dias – o Amazonas despeja no mar cerca de 130 milhões de litros de água doce por segundo”, informa o jornalista Washington Novaes. De toda a água no planeta, apenas cerca de 1% está disponível para consumo imediato. Tamanha escassez não deveria ser tratada com tanto desdém. Cada vez mais os mananciais são degradados. A população mais pobre sofre as consequências da falta e da água sem tratamento adequado. Relatório da ONU informa que morrem mais pessoas por água contaminada do que por todas as formas de violência. A escassez de água “pura” mata anualmente 1,8 milhão de crianças com menos de cinco anos de idade. A parte mais rica da população, embora tenha água tratada, engole agrotóxicos, metais pesados (mercúrio, chumbo, cádmio etc.) e outros elementos químicos em quantidades prejudiciais à saúde humana, pois a maioria dos processos de captação e tratamento não os eliminam. Metaforicamente, bebemos câncer e outras doenças. Calcula-se que dez milhões de pessoas morram anualmente por doenças transmitidas pela água.
Nossa ignorância e irresponsabilidade não nos deixam ver que o lixo e os rejeitos que geramos nos processos industriais e no cotidiano de consumo de produtos domésticos retornam às nossas mesas pela complexa cadeia alimentar dos seres vivos. O lixo e a poluição não ficam distantes, por mais que os levemos a quilômetros de nossas casas ou fábricas. O ar circula, a água também, e tudo empesta a natureza numa velocidade que compromete o futuro da biodiversidade.
Converse com qualquer cidadão e, muito provavelmente, você não perceberá em seu semblante sinais de alarme ou preocupação com o que pode acontecer a partir das mudanças climáticas. Dinheiro e Consumo são os deuses onipotentes da atual civilização. Há uma confiança cega em que a tecnologia limpará o planeta. Que a ciência – hoje quase uma religião! – terá respostas para tudo e saberá deter as catástrofes anunciadas. Comprometer o equilíbrio do planeta é apostar no caos, em situações imprevisíveis. E fazemos isso em nome da ganância e do consumo desenfreado, viciados pelo prazer.
O planeta levou bilhões de anos para “acalmar” forças estupendas que pulsaram e ainda se movimentam desde as suas entranhas até o último limite da biosfera. Frio e calor extremos, enchentes e secas, tsunamis e furacões, doenças devastadoras… Milhões de espécies que aqui viveram desapareceram para sempre. Cientistas sabem, sobretudo os biólogos, que o tipo de inteligência que permitiu ao Homo sapiens dominar vastas extensões do globo terrestre não é uma grande vantagem competitiva na luta pela sobrevivência. Outras espécies dispõem de mecanismos muito mais úteis e adaptáveis para sobreviverem ao que – tudo indica – está a caminho.
Somos água. Setenta por cento do nosso peso é constituído por água. Se empestarmos a água, apodreceremos junto. Se desperdiçarmos, haverá mais do que sede: guerras, fome e doenças. Precisamos, urgentemente, cuidar desse patrimônio da humanidade.
