Não vou trabalhar este restinho de ano…
Por Daniel Argolo*
Não é de hoje que somos famosos pela farra do Carnaval. Afinal, também conhecidos como o país do futebol, damos o pontapé “oficial” para o início do ano sempre após o festerê coletivo. Registrado no meu córtex cerebral, precisamente desde o ano de 1974, a frase sempre me ocorre: não adianta falar mal, o Brasil só começa depois do Carnaval.
Olhando rapidamente para o calendário, fiz uma análise-relâmpago dos feriados, protocolos e demais festividades acolhidas pelo gigante pela própria natureza. Daí o motivo do jocoso título deste breve artigo. Acompanhe comigo: janeiro é mês de férias (merecidas); fevereiro, meio misturado às águas de março, o Carnaval. Abril, maio e junho, temos o “esquenta”; julho já é férias escolares (igualmente merecidas). Como agosto é o mês do cachorro louco, melhor não correr muitos riscos; em setembro, declaramos nossa “independência”; outubro, planejamos o ano que se anuncia; novembro, empurramos todas as decisões para o próximo ano, afinal, ho,ho,ho, já é Natal.
Se o calendário for acrescido de algum evento esportivo internacional, como Copa do Mundo ou Jogos Olímpicos, a disputa fica ainda mais acirrada. Afinal, temos o Rei Pelé, os heróis do voleibol e as promessas da natação. Isso sem falar nas oportunidades e investimentos que eventos dessa natureza trazem para o país. Rapaz, é tanta coisa boa que cansa só de pensar.
Eu, de fato, não tenho nada contra um bom descanso, muito menos uma boa festa. Mas dá uma preguiça, não acha? O ano nem começa e a gente já se vê diante das fantasias. Refiro-me às fantasias criadas naquele raro momento sóbrio,em meio ao Natal e o Révellion. Quase sempre entre aquele “inédito” show do Robertão e o “salve-se quem puder” da São Silvestre. É nesse clima que fantasiamos que, no próximo ano, realizaremos mais do que no anterior.
Avaliando a organização das escolas de samba, temos um bom exemplo de como o planejamento funciona. Imagine orquestrar uma bateria de tirar o fôlego, baianas a rodar, blocos e mais blocos pintados dos pés à cabeça. Imagine mais, como deve ser difícil fazer uma reserva mensal no apertado orçamento para comprar todas as penas, plumas e adereços necessários para brilhar. E, ainda, abrir espaços na agenda para os ensaios, que têm como objetivo realizar todo o espetáculo em apenas uma hora. Na minha opinião, não há outro país capaz de organizar tamanha epopeia.
Na cadência bonita do samba, vamos levando a vida com esse jeitinho que nos faz um povo único, criativo, detentores de uma das maiores cargas tributárias do mundo. Como a fauna é vasta, o leão logo aparece na festa abocanhando sua fatia (aquela que quase sempre acaba em pizza). Em ano político, misturados à tropical bebida “caipirinha”, ficamos tentados a não fazer muito esforço e correndo o sério risco de “caipirar” na hora de votar.
A verdade é que a economia mundial em colapso, desde a crise de 2008, aponta o Brasil como a bola da vez. Obama apontou para o Lula, lá, e disse: você é o cara. Hoje, com um olho no calendário e o outro no peixe (afinal, ninguém é de ferro), faço uma indagação: quem é o cara? Isso mesmo: quem vai ter que fazer a coisa acontecer em 2012? Acho que é você; acho que sou eu. Assim sendo, antes do Carnaval, fica a dica: beba com moderação e exagere na reflexão.
Bom feriado a todos. ;)
*Daniel Argolo é publicitário, diretor de planejamento da D/Araújo, em Florianópolis.
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