Um dos personagens de Pitigrilli, sempre que via uma pessoa, imaginava-a sentada na privada. Fosse uma linda moça, um general, um taxista ou a rainha, não podia evitar que a imagem insólita lhe viesse à mente. Por isso vivia rindo e não se deixava impressionar com quem quer que fosse. Com o personagem, o escritor nos reduz a todos à inequívoca condição igualitária que nossas necessidades determinam. Pobres ou ricos, poderosos ou fracos, caucasianos ou afro descendentes, todos nos nivelamos diante do vaso.
Certa vez eu estava participando de um encontro de casais, evento com forte conotação emocional em que os apresentadores, com seus exemplos, tinham o dever e o poder de nos elevar a uma situação idealizada, a ser mais tarde seguida em família.
Num dos intervalos fui ao banheiro e, enquanto lavava as mãos, ouvi um trovão vindo de um dos reservados – tão forte que me fez virar rapidamente para trás, a tempo de flagrar duas baratas saindo por debaixo da porta em desabalada carreira. Eu ria e ria, entre espantado com o fragor do desabafo e a fuga das assustadas baratas. Estava ainda enxugando as mãos, quando vi pelo espelho o autor do feito, um senhor baixinho, meio gorducho e de porte circunspeto, que saia do reservado. Para evitar maiores constrangimentos, imediatamente sai e fui sentar-me ao lado de minha mulher. Eis que em seguida entra no palco o palestrante da vez. Quem era? Exatamente, o tal baixinho circunspeto. Minha mulher não entendia porque eu tentava segurar o riso sem conseguir, e não preciso dizer que nem fiquei sabendo direito do que tratava a sua fala. Para mim, era o barulhento espantador de baratas. Tal como o personagem de Pitigrilli, não conseguia imaginar o homem em outra posição que não fosse aquela primitiva.
O fato é que, de uma forma ou de outra, todos em algum momento fazemos uma, real ou figurada, que nos expõe. E pode ser que nunca mais sejamos vistos de outra maneira, dependendo das circunstâncias. Vide a grande maioria dos militantes na política brasileira. Difícil imagina-los, mesmo quando estão em seus longos e inflamados discursos, senão sentadinhos no trono.
E qual a semelhança entre esses políticos e jogadores de futebol?
A celeste olímpica.
O Diário Catarinense de domingo traz matéria que debate a diminuição da paixão do brasileiro por sua seleção de futebol. Algumas razoes trazidas pelos debatedores: jogadores que atuam fora do Brasil; qualidade dos jogadores; a insensibilidade provocada pela rotina de desmandos e impunidades; e até a elevação do nível dos torcedores. Todos, obviamente têm direito à sua opinião e devemos respeita-las, mas vejamos o que acontece com o Uruguai: na Copa de 2010, enquanto a Espanha esbanjava categoria com o ritmo do Barcelona, nosso pequeno vizinho empolgou pelo espírito de luta, pelo conjunto, pela garra. Acaso? Não, como ficou demonstrado na Copa América.
A seleção uruguaia tem quase todos os jogadores atuando fora do país, e craques mesmo, três ou quatro – os demais são bons jogadores. Mas ela tem coração, tem alma e eu, que não consigo mais me entusiasmar com a nossa, vibrei com a campanha e com a conquista dos uruguaios.
Procurando saber mais, vi que o Sr. Ocar Tábarez, treinador, declarou que quer em seu time mais do que bons jogadores – quer homens, que honrem seu mandato e que tenham consciência de que são um exemplo para as crianças compatriotas. Que tenham o melhor desempenho dentro e fora do gramado.
Parabéns, treinador, parabéns! O nosso diz que nós temos craques e que o Uruguai tem time. Eu acho que nós não temos craques, nem time, nem o tipo de homens que precisamos. Espelhem-se na Celeste Olímpica ao invés de ficar se preocupando com cabelo, brincos e comemorações com dancinhas…
Então, pode ser que os brasileiros voltem a se apaixonar pela sua seleção, que não deveria ser canarinho, mas falcão dourado ou coisa parecida, assim como a uruguaia não é a azulzinha, mas a Celeste Olímpica.
