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Entrevista com Maria do Rosário Stotz. Saúde e Psicopatologia no trabalho
19 de Maio de 2012

Entrevista com Maria do Rosário Stotz. Saúde e Psicopatologia no trabalho

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Tive o prazer de entrevistar a Dra. Maria do Rosário Stotz, psicóloga, Diretora da Editora da Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina), instituição em que leciona as disciplinas de Teoria Psicanalítica e Psicopatologia, em que ela explica de forma brilhante muitas de nossas angústias e problemas em relação a saúde e as psicopatologias do trabalho. Devido a relevância do tema e do número de pessoas que sofrem e perguntam diariamente sobre o assunto, dividi a entrevista em duas partes. Espero que você goste!

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Caso você queira estabelecer um contato direto com Maria do Rosário Stotz, envie um email para [email protected]

CONTEXTUALIZAÇÃO
Em 1980, o médico psiquiatra, psicanalista, especialista em medicina do trabalho e ergonomista, Christophe Dejours, escreve um livro intitulado A Loucura do Trabalho, considerado até hoje, um marco na temática “saúde do trabalhador”.  No livro, Dejours apresenta seus estudos no campo da medicina do trabalho, expandindo-os posteriormente para a Psicopatologia do Trabalho e mais tarde para a Psicodinâmica do Trabalho.

Em uma breve contextualização histórica, após 1968, com um esgotamento do sistema Taylorista, no terreno econômico, social e ideológico, surge uma preocupação com a saúde mental e na França, com o discurso de maio de 1968, o trabalho passa a ser visto como a grande causa de alienação.

 

Marcucci: Como é possível ter equilíbrio no trabalho nos dias atuais, se muitas das questões como a duração excessiva do trabalho, a saúde debilitada do corpo, empresas com condições insalubres e muito sofrimento mental em relação a tudo isso, não mudaram?

Maria do Rosário: Bom. Desde aquela época investiga-se a fundo como os trabalhadores, frente a situações adversas de trabalho, conseguem continuar trabalhando e aparentemente em situação de equilíbrio. Há um estudo sistemático para entender as estratégias de enfrentamento mental para o trabalho. É nesse sentido que a normalidade aparece como um equilíbrio precário psíquico entre constrangimentos do trabalho que são patogênicos e defesas psíquicas. E há uma possibilidade de equilíbrio a partir de uma regulação instaurada via estratégias defensivas e uma normalidade conquistada e trespassada pelo sofrimento.

 

Marcucci:Podemos então dizer que a relação das pessoas em relação às organizações de trabalho pode remeter a alguns tipos de enfrentamentos?

Maria do Rosário: Certamente, pois há vários encontros entre o registro do imaginário produzido pelo sujeito, o registro da realidade produzido pela situação de trabalho, o encontro entre o registro diacrônico de história de vida do sujeito e ainda, o registro sincrônico de contexto material e sócio histórico das relações de trabalho. É algo complexo que precisa ser entendido, pois esta compreensão nos dá uma análise dinâmica dos conflitos despertados na relação de um sujeito, com sua história particular e a situação do trabalho, com características que geralmente independem do sujeito, sendo que ambos os elementos podem sofrer transformações durante esta relação.

 

Marcucci:Nessa escola, Dejours diz que o sofrimento e o prazer são, em suas origens, provenientes de uma relação com o inconsciente. Como você analisa esta relação como psicóloga e psicanalista?

Maria do Rosário:O funcionamento é mais ou menos assim. Há uma carga psíquica de trabalho, e esta, resulta da confrontação do desejo do trabalhador à injunção do empregador, contida na organização do trabalho e que possui elementos afetivos e relacionais, podendo ser quantificáveis a partir da abordagem econômica do funcionamento psíquico. As questões da transformação do sofrimento mental relativas à organização do trabalho passaram com o tempo e o aprimoramento do método de trabalho, a pertencerem a escola Dejouriana, denominada de Psicodinâmica do Trabalho, voltada ao estudo das lutas individuais ou coletivas contra o sofrimento que geram  patologias ou seus modos de enfrentamento.

 

Marcucci:é fato que existe uma tensão em todo o processo e que os trabalhadores reagem das mais diversas formas?

Maria do Rosário: Exato, e para descarregar essa tensão o trabalhador pode fazê-lo via psíquica (criando fantasmas), via motora (ação da musculatura, atuação agressiva, fuga), via visceral (sistema nervoso autônomo, desordenamento das funções somáticas), via psicossensorial. O sujeito quando chega ao trabalho traz uma história que lhe é anterior, o que revela características únicas e pessoais e dependendo de sua estrutura de personalidade terá suas vias de descarga diferentes.

 

Marcucci:isto ocorre mesmo quando a pessoa escolhe onde quer trabalhar?

Maria do Rosário: O estudo da carga psíquica de trabalho deve ser feito caso a caso. Quando acontece uma escolha da livre atividade não ocorre uma retenção da energia pulsional, e isto é possível quando a tarefa laboral esta adequada às aptidões psíquicas, fantasmáticas e psicomotoras do sujeito, sendo que não existe uma única organização do trabalho, que seria a solução ideal para diminuir a carga psíquica do trabalho de todos.

Diz Dejours que em termos econômicos “[…] o prazer do trabalho resulta da descarga da energia psíquica que a tarefa autoriza, o que corresponde a uma diminuição da carga psíquica do trabalho.” Ou seja, além da livre atividade, este funcionamento deve ser adequado ao conteúdo da tarefa e revigorado por esta.

Clique aqui para assistir ao depoimento em vídeo da Dra. Maria do Rosário Stotz.

Acompanhe na próxima semana a segunda parte da entrevista.

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