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Centro Niemeyer, morto e sepultado
15 de Dezembro de 2011

Centro Niemeyer, morto e sepultado

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Hoje deixo de lado o assunto publicidade para falar de um tema que me chamou a atenção nesta semana e que tem a ver com o Brasil, com a Espanha, com cultura, arte, dinheiro, política e, sobretudo, com sacanagem da grossa. Pode até servir de amargo consolo aos que pensam que corrupção e jogo sujo são privilégios do nosso terceiro mundinho. O caso é o seguinte.
 
Ainda na época em que eu trabalhava no Setor de Imprensa e Divulgação da Embaixada do Brasil em Madri, mais precisamente em 26.03.11, inaugurava-se na cidade espanhola de Avilés, no Principado de Astúrias, o Centro Cultural Niemeyer, arquitetado pelo próprio que lhe dá o nome. Foi um orgulho para todo brasileiro que vive aqui e um acontecimento de relevo para a cultura espanhola, o que pode ser deduzido pelo destaque dado pela imprensa do país ao fato. Pra se ter uma ideia da repercussão do projeto, a ala de cinema foi inaugurada por Woody Allen. Já estiveram presentes no Centro atores como Kevin Spacey, Jessica Lange e Brad Pitt, divulgando seus filmes em aberturas de festivais. Nomes de diferentes áreas da cultura e do saber, como Stephen Hawking, Omar Sharif, Paulo Coelho, Paco de Lucía, Carlos Saura e Gilberto Gil, também já pisaram seus palcos, seja para concertos, apresentações ou palestras. Todos eles, invariavelmente, rasgavam elogios à estrutura do Centro, à iniciativa do projeto e principalmente às linhas sutis do centenário Niemeyer (que, diga-se de passagem, não cobrou nada pelo projeto; foi presente do bom velhinho à cidade de Avilés). O efeito era tremendo. Sempre que qualquer evento do Centro era divulgado pela imprensa, divulgava-se de lambuja, e positivamente, o nome do Brasil e de Oscar Niemeyer, configurando-se uma valiosíssima publicidade espontânea. Até aí tudo bem, tudo lindo e maravilhoso.
 
Só que político espanhol – não nos esqueçamos – é historicamente professor dos ladrões de galinha que infestaram rapidamente os cargos de mando na América Latina. É claro que aí do outro lado do Atlântico aperfeiçoamos como ninguém a arte de sacanear, suplantando os mestres, mas não se nega que aquele dedinho coçando irresistivelmente pra surrupiar o bem alheio, aquela homérica sede por poder, estatus, uísque, viagens, carrões, iates, putas de luxo e ostentação têm origem aqui mesmo na Península Ibérica.
 
Pois então. Voltando à vaca fria. Em maio de 2011 tivemos na Espanha eleições para governantes das chamadas Comunidades Autônomas, equivalentes aos nossos governadores de Estado. No Principado de Astúrias o eleito foi o tal Francisco Álvarez-Cascos, que, segundo o El País de 12.12.11, “conseguiu em coisa de meio ano a façanha de fechar uma empolgante fábrica de conteúdos culturais”. Sim, o Centro Niemeyer de Avilés foi fechado. Tudo porque o tal do Cascos não ia com as fuças dos administradores do projeto e armou uma mutreta cabeluda pra melar o negócio. E conseguiu. O Centro fecha suas portas nesta semana, para tristeza dos espanhóis e do próprio Niemeyer, que manifestou publicamente sua desilusão.
 
Dá até preguiça – pra não dizer nojo – de entrar nos pormenores da notícia. Pra quem quiser saber mais, taí a Nossa Senhora Internet. O que ficam para o brasileiro que mora aqui são a decepção e a comprovação de que política e grana sempre vencem a cultura. Ou, o que pode ser pior, a manipulam. Ficam também a pena, a indignação e um certo nó na garganta ao ver a agonia de um projeto que divulgava o Brasil de uma forma bacana, saindo do estereótipo bundas, samba e futebol. E fica por fim a sensação de que não há cantinho no mundo – seja ele primeiro, segundo, terceiro ou quarto – livre da lacra da corrupção.

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