Boni, todos sabem, é um dos mais influentes profissionais da televisão brasileira, provavelmente o maior responsável por estar a TV Globo na posição que ostenta hoje. Estou lendo – e recomendo – o Livro do Boni, que oferece uma rica descrição de como se desenvolveu a televisão no Brasil. No final dos anos 50 convivemos brevemente, ele na Lintas e eu na Lever, no mesmo prédio da Rua Senador Queiroz em São Paulo. Depois, nossos encontros eram em grupos que se reuniam em torno de boas mesas, mas sempre falando de propaganda. Ele era intransigente, defendia suas convicções a todo custo fosse com quem fosse, chutando o balde muitas vezes, o que explica de certo modo sua meteórica passagem por algumas empresas do mercado.
Voltando ao livro: na dedicatória ele inclui seu filho Boninho, “competente diretor de TV”. Se o Boni diz que é eu acredito, mesmo porque não lhe faltou escola. Na página 191, está escrito assim: “E o indispensável para isso (servir o mercado publicitário de maneira eficiente) era fazer uma programação de qualidade, atrações constantes, informação, serviço e responsabilidade social”. Maravilha.
Ora, nada disso se vê no BBB que o Boninho dirige. Nada mesmo. Então, qual será a avaliação do Boni? Certamente está orgulhoso por estar o filho ocupando espaços na Globo e ganhando altas granas. Mas o que preconizava (qualidade, responsabilidade social, serviço, informação), isso fica para o futuro.
Sem nenhuma dúvida, o cinema e depois a televisão foram as grandes ferramentas de divulgação do American Way of Life, que levaram para o mundo todo os costumes e valores do povo da América do Norte, determinando sua prevalência como potência. Mais do que isso, porém, foram sempre direcionados para moldar e elevar o moral da população. Assim, em tempos de crise como guerras, a grande recessão, o 11 de setembro, surgiram longas metragens e séries de TV com comedias, musicais; tramas que discutem a teoria da conspiração e outras.
Aqui, o cinema conta pouco e a fórmula encontrada para a TV (e Boni tem muito a ver com isso) é imutável: teledramaturgia, telejornalismo, humorismo escrachado e shows de auditório. É bom ressaltar que em nenhum outro país os reality shows ainda são sucessos – o Brasil é o único.
Só podemos atribuir ao voyerismo ou bisbilhotice que anima o público brasileiro, que se deixa envolver na intimidade dos “heróis” e gasta em telefonemas para paredões. E novelas, não são outro tipo de bisbilhotice? Acompanhar obstinadamente as neuroses de um personagem, comprar uma revista para saber o que vai acontecer no capítulo seguinte e, ainda assim, assistir ao tal capítulo? Fuxicar sobre os podres da malvada e apostar na superação da boazinha?
Mesmo o jornalismo resvala para a bisbilhotice: “Da. Raimunda, a senhora perdeu tudo na enchente, sua casa caiu, sua irmã morreu e seus filhos estão na rua… como a senhora se sente?” . E nos shows de domingo: “o nosso glorioso ator, quando era pequeno, apanhava da mãe porque fazia xixi na cama, e quem conta é seu irmão, o glorioso Roberval (aplausos)”.
Estou cansado de ouvir que a regra é o círculo vicioso: o governo é a cara do povo, a TV mostra o que o público quer ver. Pergunto: não é função dos governos melhorar as condições da população, inclusive, ou principalmente, em educação e cultura? Então a tal “cara do povo” deveria estar sempre melhorando e, por conseqüência, melhorando o governo. Televisão, dizem, é para entreter e não educar. Mesmo que aceitássemos o argumento, também não precisa deseducar, é ou não é?
Outro aspecto, que fica para outro dia, é o envolvimento de marcas que festejam vendas com as audiências desses programas, mas que um dia serão cobradas por sua responsabilidade na perenização de tão diminuto nível intelectual do público.
Eu só queria, como o Boni, que a TV nos desse uma programação de qualidade, atrações constantes, informação, serviço e responsabilidade social. É pedir muito?
