Eloy Simões eloy.simoes@uol.com.br
Elóy Simões é Publicitário, professor, jornalista e consultor
São todos culpados
13/10/08
1. Um amigo nosso, comandante da VASP, conta-me a estranha mensagem recebida por um piloto americano durante uma aterrissagem.
O avião da companhia norte-americana sobrevoava a Bahia, a caminho do Rio, quando um defeito no motor obrigou o piloto a providenciar uma aterrissagem no aeroporto mais próximo possível.
Na Bahia, justamente na pequena cidade de Barreiras, existe uma pista de emergência (se é que se pode chamar aquilo de pista) para os aviões das linhas internacionais. Raramente é usada, mas era a mais próxima da rota do avião. Assim, o piloto não teve dúvidas. A situação dele estava muito mais pra urubu do que pra colibri. O negócio era mesmo se mandar para Barreiras.
Pediu pouso durante certo tempo, dirigindo-se à Rádio local em inglês. A resposta demorou um pouco, mas acabou vindo. Alguém, com forte sotaque nordestino, falando um inglês arrevesado e misturado com palavras em português, respondia que estava ouvindo e aconselhava o comandante a procurar outro local para aterrissagem.
Há dias estava chovendo em Barreiras e a pista se achava em péssimo estado.
O piloto, sem outra alternativa, insistiu em pousar assim mesmo, e tornou a pedir instruções, ouvindo-se lá a dizer que estava bem, mas que não se responsabilizava pelo que desse e viesse.
Acontece porém que isso foi dito com outras palavras, ainda num misto de português e inglês. Assim:
— Ok. You land. But se der bode, I’il take my body out. (de Stanilw Ponte Preta, ou Sérgio Porto, para os menos íntimos. O texto consta do livro 10 em Humor, da Editora Expressão e Cultura)
2. Infelizmente não me foi possível assistir ao MaxiMídia. Fico, assim, com o relato feito por este Acontecendoaqui sobre a lamentável, mas esclarecedora discussão entre Nizan Guanaes e Fábio Fernandes (íntegra aqui). Transcrevo o que foi noticiado pelo portal: “A discussão teve início logo após um discurso que Nizan Guanaes trouxe preparado sobre sua interpretação para a atual crise, na qual traçou um cenário bastante pessimista e sobre como as empresas do grupo ABC estão tomando precauções. Fernandes pediu a palavra para criticar o discurso de Nizan, afirmando que o painel deveria ser um debate sobre o momento e não um espaço para discursos. O presidente te da F\Nazca S&S também criticou a visão pessimista de Nizan e seu modelo de atuação no mercado publicitário. “Você é responsável em grande parte pelo que está acontecendo”, acusou, atiçando os ânimos do painel.
2. Não, Nizan não é o único culpado. Fábio Fernandes, também é. Aliás, toda a geração de publicitários que se projetou na década de oitenta é culpadíssima.
3. Nizan, Fábio Fernandes, Washington Olivetto, Cláudio Carillo, Eduardo Fischer, Luís Grotera, Silvio Matos, Dorian Taterka, Roberto Justus, Celso Loduca, Marcelo Serpa, Alexandre Gama, só para citar alguns. Uma geração com raro talento e um faro especial para os negócios. Craques em ganhar dinheiro. Donos de trabalhos invejáveis. No entanto, incapazes de preservar as conquistas das gerações que as precedeu, porque nada deu de volta à profissão que lhe permitiu fazer isso.
Nada, absolutamente nada.
Desse mato não saiu um só coelho disposto a contribuir com o amadurecimento do setor. Um dia, quando algum pesquisador descrever a história recente da publicidade, eles serão registrados como grandes fazedores de negócio pessoal, que se aproveitaram da publicidade para satisfazer sua vaidade pessoal e fazer sua fortuna, sem oferecer nada de volta.
4. Narcisos da publicidade, passaram o tempo olhando seus reflexos no espelho das vaidades, desfilando na passarela de Cannes, exibindo seus leões no Brasil.
Distraídos, não perceberam – ou se perceberam acharam nada importantes diante do seu fascínio pessoal – que no entorno do trono onde se sentam, as coisas azedavam. Dividiam o tempo entre o espelho, o próprio umbigo e o puxa saquismo dos bobos da corte.
E os anunciantes se rebelaram. A sociedade pressionava. No Congresso e nos governos. os políticos deitaram e rolaram. Mas eles não ouviam. As águas do lado, onde eles, quando não estavam na frente do espelho, iam admirar a própria beleza, já estavam turvas, mas a vaidade já os havia cegado.
5. Foram necessários trinta anos para que percebessem que era preciso reunir a categoria. Mesmo assim, essa percepção não partiu deles. De nenhum deles.
Agora, com a água poluída lhes batendo na bunda, se acusam. Já é alguma coisa. Quem sabe, o Fábio Fernandes tenha dado o primeiro grito capaz de acordá-los e fazer com que eles aterrisem no mundo real. Tomara que não seja tarde demais.
But, se der bode, I’il take my body out.
COMENTÁRIOSDavid Góes: Poxa professor, parabens pelo texto. Só o sr. mesmo pra ter essa coragem.
Infelizmente me parece que as gerações seguintes estão a vir com o ego mais inflado ainda. São os frutos das carreiras apontadas para os leões e nomes impressos nas revistas.
E a crise é bem mais ampla do que se aparenta.
Avi jisuis! Alexandre Barroso: Sen-sa-ci-o-nal! Você sabe tudo Eloy. Está certíssimo. Quem teve o prazer de conviver com a sua geração de publicitários sabe bem do que fala. É isso meu amigo! Parabéns!
Aline Nunes: Não precisa mais nada Prof Elóy. Esse texto já disse t-u-d-o. Parabéns mais uma vez.Marcelo Pereira da Silva: Muito bom texto.Malu Tavares: Parabéns professor, muito verdadeiro. As estrelas da publicidade esqueceram as gerações que os antecederam e que tem nomes valiosíssimos, super talentos e acima de tudo, super profissionais que dividiam com suas equipes os louros da vitória e não o individualismo narcisista. Grande idéias desenvolvidas em condições tecnólogicas precárias. Com a tecnologia disponível hoje é fácil fazer e desenvolver qualquer idéia, o difícil é fazer desta idéia os resultados esperados para o cliente. Torcemos para que as vaidades e o egocentrismo sejam deixados de lado, todos ganharão, a publicidade, equipes e clientes. Malu Tavares, (ex-MPM dos tempos de ouro)Fábio Schmidt: O Professor Elóy está coberto de razão. Ele sabe muito. Quanto ao texto, sem palavras, simplemente sensacional. Parabéns.hans dammann: Grande Eloy ! Depois de tantos anos, é reconfortador rever você através desse texto franco e corajoso. Como você diz, acho que o espelho falou mais alto, e acabamos esquecendo de contribuir para o todo. E sabe do pior ? Confesso que a coisa tinha me passado desapercebida: talvez você tenha colocado o dedo no calcanhar de Aquiles da defasagem hoje vivida por nossa atividade: muita pavonice para pouca doação. Um abraço grande e saudoso do Hans. Fernando Palermo: Grande amigo, colega, professor e ídolo Eloy. Vc pegou na veia e botou no ângulo. Assim como o Hans (outro monstro sagrado) comentou, eu tb não tinha me dado conta disso. Lendo seu texto caiu a ficha. Briga de egos talentosos, que durante esses anos todos se contentaram em brilhar, sem perceberem que o céu é muito maior do que as estrelas. Abração.Paula L: Pois é. o mercado publicitário está podre. E o cheiro da carniça está começando a incomodar "os inabaláveis".
Eu realmente gostaria que os profissionais, e eu estou falando daqueles que são realmente publicitários, conseguissem ter coragem de tomar uma atitude. Se unir, pelo crescimento real da publicidade brasileira. E isso não tem nada a ver com leões de Cannes. Mesmo que parta deles de cada um. Não aceitando a prostituição dos próprios profissionais do mercado. Hoje tem profissionais graduados e competentíssimos recebendo 600 reais por mês, trabalhando das 9 da manhã às 2h da madrugada, sem receber nada a mais por isso e ainda é acusado de fazer moleza pra receber o dinheiro do jantar ou do taxi pra casa.
Quando o assunto é dinheiro do bolso de quem manda, a coisa muda de figura. E o barraco toma proporções ridículas como esta confusão.
É entristecedor. sinceramente.Roberto Halfin: Prezado Eloy, Gostaria de parabenizá-lo pelo texto "São todos culpados". E faço isso porque conseguiu retratar bem a briga de egos em que se transformou a publicidade brasileira. E todos que, de alguma forma participaram desse mercado, colaboraram para que o estado das coisas chegassem a esse ponto.
Durante muito tempo, a motivação para entrar para o mercado publicitário equivalia apenas a conseguir ser "engajado", "moderno", "criativo", "bem-sucedido" e outros atributos mais. Quando deveria ser a vocação e a capacidade de buscar soluções para o mercado. O meio publicitário evoluiu na forma e muito pouco no discurso, no comportamento e em soluções estratégicas.
A maior prova disso é que existem poucos estudos de caso de empresas brasileiras no mercado publicitário, pouca produção intelectual voltado a esse segmento (que inclusive é vista com preconceito por muitos destes publicitários como algo irrelevante) e os textos e obras que foram publicados, no mais das vezes, visam mais valorizar o autor que o conteúdo de suas obras.
Já tentei como professor conseguir casos para fins acadêmicos. Tudo que consegui foram filmes. No começo pensei que fosse por medo de expor segredos empresariais. Não foi. E que nunca se pensou nisso mesmo. Em suma, cobramos conteúdo aos novos mas lhes negamos os acessos, as experiências anteriores e as experiências vividas.
Esse debate, pelo que li e como menciona em seu texto, talvez possa ser um primeiro passo para uma forma de encarar o negócio propaganda com um pouco mais de seriedade. Nem tanto para aqueles que já estão, mas principalmente para aqueles que irão chegar.
As crises, nesse sentido, são essenciais. Se não elas não colocam os deslumbrados em seus devidos lugares, ao menos servem para assustar aqueles que financiam as festas. Quem sabe um dia a ficha cai. Mas, se não cair e ser der bode, I´il take my body out rss Parabéns novamente!
Fábio Del Santoro: No ano que vem faz exatamente 30 anos que estou nesta profissão. E quem me deu a chance de ser um redator, foi um grande redator dos bons tempos da propaganda chamado Elóy Simões. O mesmo Elóy que agora através deste corajoso artigo revela às novas gerações ,que a geração de 80 que se projetou realmente errou, porque visou apenas fama, dinheiro e poder, em cima de uma profissão que precisa de muito mais do que isso para existir.Sempre que a economia tem uma dor de barriga, os figurões aparecem com seus dircursos prontos, suas lamentações e suas farpas para culpar um ou outro.Elóy tem toda razão quando cita não um, mas toda uma geração de culpados para que esta profissão tenha deixado de ser a maravilhosa profissão que me foi ensinada em grande parte pelo Elóy, que não vejo pessoalmente já a muitos anos. Acredito também que esta geração deve ser responsabilizada por esquecer que, quem paga a conta, o cliente, adorou quando os senhores citados na matéria baixavam suas comissões na calada da noite, de maneira no mínimo irregular e velada, desde os bons tempos do 20%, mostrando toda a fragilidade do negócio como um todo.Tudo para conquistar contas a qualquer custo. A profissão perdeu seu brilho, mas as ferraris e helicopteros conquistadas por esta geração ainda não. E para eles, aqui entre nós, é o que importa. Parabéns Elóy!Ricardo Villar: Nossa, meus parabéns pelo texto, realmente o seu ponto de vista é de uma sinceridade que só pode ser possível, vinda de alguém que viveu esse momento de perto. Bom eu sou de Vitória - ES e tive o "previlégio" de assistir pessoalmente a esse encontro, e lhe digo, as ofenças e discurções foram muito mais profundas do que parece. É claro que por tráz de tudo, nota-se que os personagens são declaradamente o "bom moço" (Fábio Fernandes), que defende a publicidade feita para ser publicidade e não uma máquina de dinheiro, e o Vilão (Nizan), que não é um publicitário, e sim um excepcional empreendedor e empresário, de maneira que se vendesse tanto publicidade quanto Bananas, não faria a menor diferença... para quem quizer assistir um pedaço dessa guerra de egos pode conferir neste site> http://www.brainstorm9.com.br/2008/10/22/nizan-guanaes-vs-fabio-fernandes/
Parabéns pela percepção e obrigado pela matéria ... adorei o site!