O futuro do jornal
15/07/09 - Recebi, recentemente, um pedido do Hermes e da Valéria, alunos do Laudelino Sardá no curso de Jornalismo da Unisul, para falar sobre o futuro do jornal impresso e do webjornalismo. Como afirmei a ambos, não me acho "especialista" no assunto. Mas como o papel em branco aceita tudo - e a tela do computador também -, fui respondendo às inquietações dos futuros jornalistas, ao mesmo tempo em que respondia a mim mesmo, porque não sendo professor, acadêmico, teórico ou especialista, não é da rotina de um simples jornalista interrogar-se sobre essas questões. Longe de mim, portanto, imaginar que as coisas irão acontecer da forma como foram expostas a seguir. É uma aposta. Se perder, aceito pagar, mas só por volta de 2030, 2050 quando, quem sabe, já saberemos mais concretamente o que aconteceu com essas mídias ou ainda estará na iminência de acontecer.
Comecemos com a entrevista sobre o futuro do jornal impresso, feita pelo Hermes Gregório.
- O perfil do leitor do jornal on-line é o de buscar a notícia de forma imediata, com ansiedade. Qual o perfil do leitor do jornal impresso? Ele busca mais detalhes da notícia?
Jornalismo exige sempre o máximo de precisão e o mínimo de "achismo". Portanto, não tenho pesquisas em mãos que apontem para o perfil que você lança como hipótese. É bem provável, pelo perfil das novas gerações, que já se acostumaram com a velocidade das novas tecnologias e o próprio ritmo frenético de vida da civilização no século 21. Mas se a hipótese for verdadeira, é uma contradição, pois é justamente no espaço virtual que não há (praticamente) limite para a inserção de conteúdo, nem custo. O conteúdo de 200 páginas na internet é zero, no jornal, uma fortuna. Logo, a internet abriu um campo enorme para aprofundar questões que não caberiam num jornal impresso. Basta dizer o seguinte: a internet fez desaparecer distância, tempo e espaço. Se é para comparar mídias, podemos dizer que a TV (o rádio um pouco menos), por sua linguagem (e até mesmo por razões ideológicas), não tem muito interesse em aprofundar o conteúdo de uma notícia. Função que os jornais, como os conhecemos até hoje, sempre fizeram, posto que acessíveis apenas para uma parcela menor, mais culta e de maior poder aquisitivo da população. Então, não vejo por que a internet não possa produzir um jornal on-line com muito mais conteúdo do que o impresso. O problema não está na plataforma (tela virtual ou papel impresso), mas sim no custo de produção da notícia e os interesses político-ideológicos envolvidos. Uma coisa é certa: produzir boas notícias custa caro, muito caro. Exige uma equipe de repórteres de qualidade, tempo e meios para se chegar aos fatos. Os jornais sempre investiram muito em profissionais qualificados. Grandes reportagens são trabalhosas. O modelo televisivo notícias – com a Globo fazendo escola –, não aprofunda a análise, não costuma fazer a contextualização (fundamental para se entender o que está acontecendo). Se restringe, geralmente, a responder “o que está acontecendo com quem, onde, como, quando e, só às vezes, por que”. Isto não exige jornalistas muito capacitados ou experientes. A fórmula é muito simples e fácil de aprender. Tanto que, ao contrário do que ocorre, por exemplo, na Inglaterra ou nos Estados Unidos, raros são os repórteres de “cabelos brancos” na TV. Raros os que conseguem falar, por muito tempo, ao vivo. Raros os que sabem fazer perguntas aos entrevistados. Raros os que conseguem interpretar a própria notícia que estão produzindo. Por isso, o que mais se vê, é um festival de obviedades. E não por culpa de boa parte desses jovens jornalistas, mas dos donos dos meios de comunicação, principalmente, porque há profissionais qualificados no mercado, mas as emissoras, sobretudo as regionais, não querem pagar o preço. Não raro, os jornalistas mal saem das universidades e já empunham microfones à frente das câmeras. Tanto mais fácil se for um rosto bonito.
Ainda hoje, jornais e revistas têm produzido a maioria das reportagens relevantes na sociedade. Mas é claro que a TV tem o recurso da imagem, em alguns caso muito mais impactante, muito mais sedutora, muito mais emblemática – embora por si só nem sempre informe muita coisa – além da inegável agilidade de noticiar algo no momento em que ele acontece.
Portanto, se o perfil do leitor do jornal impresso é de alguém que procura por notícias mais bem elaboradas, é justamente porque esta é uma mídia de uma parcela da população mais adulta, com mais idade, maior poder aquisitivo e que se acostumou com este veículo de comunicação. Mas nada impede que este leitor migre para a internet e seus jornais on-line, desde que tragam informações de qualidade e com credibilidade – outro fator importante para qualquer mídia de notícias. Por razões econômicas e tecnológicas (pode-se acessar mais facilmente, de qualquer lugar) – entre outras –, boa parte dos leitores de jornais impressos, atualmente, já procura ler esses mesmos jornais na internet.
- O que o jornal on-line não proporciona e que faz com que o jornal impresso sobreviva?
Por enquanto, basicamente, melhores equipes de jornalistas produzindo notícias. Mas isso está mudando, rapidamente. Estamos justamente numa fase de transição e aglutinação de mídias. Mas uma coisa é certa: onde houver mais dinheiro e investimentos na contratação de bons jornalistas e outros profissionais necessários à circulação da informação, certamente será ali que se produzirão as melhores notícias, as melhores análises. Para o jornalista pouco importa a mídia, ele quer é investigar com o máximo de precisão o fato que irá tornar público. E quem souber contar uma boa história, seja em que mídia for, terá sempre um público interessado.
- Os grandes jornais já possuem versão on-line. Você acha que o aumento do acesso desta versão pode, num futuro não muito distante, acabar com a versão
impressa?
Vai acontecer, inevitavelmente, uma migração de leitores. Os jornais impressos não deverão desaparecer, no curto e médio prazo, mas suas tiragens diminuirão muito. Não tem mais muito sentido derrubar milhões de árvores, despejar toneladas de tintas poluidoras para imprimir notícias que em pouquíssimo tempo estarão defasadas em relação àquelas produzidas pelos veículos on-line. Sem falar nos custos, papel, tinta, transporte para levar a notícia até a banca ou aos assinantes. Jornal, no futuro, será para poucos. Deixará de ser uma mídia de massa, que aliás, comparativamente com o rádio e a TV, nunca foi. Nossos maiores jornais têm tiragens muito pequenas para o tamanho da população brasileira. Entram aí fatores que contribuem ainda mais para a sua queda: baixo poder aquisitivo da população, alto índice de analfabetismo e nível educacional muito ruim. Sem falar que nossos governantes não têm um apreço especial por cultura – em todas as áreas.
- E se o fim da versão impressa realmente for algo predestinado, o que pode ser feito para uma possível sobrevivência dele?
Ninguém tem que “salvar” nada. Se algo tem que ser salvo é a própria espécie humana, mas isso é outra conversa. Cada mídia irá ocupar o seu espaço, de acordo com as suas possibilidades. O cinema não desapareceu com o surgimento da televisão. Assim como o rádio já foi o grande veículo de comunicação acessado pela maior parcela da população, hoje é a TV e amanhã será a internet ou o que vier a ser inventado. Insisto que isto pouco importa. Importa que tenhamos jornalistas e outros profissionais capacitados para bem informar a população. Uma população mal informada corre um risco muito maior de tomar decisões equivocadas, com conseqüências dramáticas para o seu prórpio futuro. Não é sem razão que quem detém o poder na sociedade controla o fluxo de informações. Quem tem acesso a informação faz uma revolução. Na política, nos costumes, na religião, em todos os campos do conhecimento humano e sua intrincada rede de relações.
- O jornal impresso tem a capacidade de fornecer notícias diferenciadas do on-line? De que forma?
Todas as mídias têm suas peculiaridades, seus pontos fortes e fracos. Todas podem produzir notícias diferenciadas, de excelente qualidade, desde que tenham bons profissionais, recursos e meios. E mais ainda: desde que tenham interesse. Informação é um produto vital para alienar ou libertar os seres humanos. Logo, dependendo dos interesses em jogo, nem sempre é conveniente que a maior parte da população tome conhecimento de fatos ou tenha suficiente discernimento para interpretá-los. Mas atenção: informação não é sinônimo de conhecimento, que é uma capacidade adquirida para interpretar e operar sobre um conjunto de informações. Ao dispor de uma determinada informação, é preciso saber relacionar, interpretar, pensar, analisar e tirar conclusões – mesmo que provisórias, até que novos conhecimentos surjam. Sem isso, toda informação gera apenas o que se convencionou chamar de “senso comum”, ou seja, não mais do que “crenças e proposições que aparecem como normais, sem depender de uma investigação detalhada para alcançar verdades mais profundas como as científicas” (Wikipédia, olha a facilidade da internet aí!)..
A forma de produzir notícias diferenciadas, seja em que mídia for, é dispor de profissionais competentes, com bom nível cultural, que saibam pelo menos um pouco de filosofia, sociologia, antropologia, política, economia, história etc e, claro, de todos os recursos e técnicas do jornalismo para a produção de conteúdo. Importante não esquecer também: que apreciem livros, boa literatura.
Porque sempre se terá filmes geniais e outros supérfluos, livros extraordinários e outros que não farão falta, reportagens que entrarão para a história e outras que, quando muito, só servirão para embrulhar peixes no dia seguinte.