Ligia Fascioni ligia@ligiafascioni.com.br / www.ligiafascioni.com.br Lígia Fascioni é Engenheira Eletricista, Mestre em Automação e Controle Industrial, Pós-graduada em Marketing e Doutora em Gestão Integrada do Design. Autora do livro "Quem sua empresa pensa que é?", é consultora empresarial na área de gestão da identidade corporativa
Tempo para criar
28-09-2008
A revista abcDesign desse mês traz um interessante ensaio de Massimo Picchi, coordenador geral da Escola Panamericana de Arte e Design. Ele fala da experiência da escola, que tem lutado com dificuldade contra a falta de inspiração generalizada das profissões consideradas criativas (design, publicidade, fotografia). Sem fazer acusações formais ou buscar culpados, Massimo observa que a massificação das idéias tornou-se mais evidente com a superoferta de ferramentas tecnológicas para esses profissionais. Agora ficou fácil pular etapas, copiar trabalhos, usar referências. Ele detectou a correlação, mas foi inteligente o suficiente para não atacar a tecnologia como a causa (seria simplista demais, apesar desse potencial culpado estar tão à mão).
Eu me arrisco aqui a dar um pitaco. Para mim, o problema maior não é a tecnologia, mas a falta de tempo. Reconheço, é claro, que há outros e complexos atores que contribuem para o fenômeno e também não quero cair na tentação de achar um vilão. Mas acompanhe só o meu raciocínio.
Numa das minhas aulas de pós-graduação em marketing, tive a oportunidade de aprender muito sobre criatividade com a Dulce Magalhães, palestrante admirada que tenho como referência sobre o que quero ser quando crescer. Ela deu uma aula que vou tentar reproduzir da melhor maneira que consigo, mesmo sabendo que haverá perdas (o que vou compartilhar é apenas a minha limitada percepção do que ela disse).
O processo criativo funciona, grosso modo, mais ou menos assim: a gente passa o dia inteiro recolhendo informações de todos os tipos. Tudo o que os nossos sentidos conseguem captar e consideramos dignos da nossa atenção são armazenados. Observe que, como é humanamente impossível captar e guardar tudo, cada um de nós desenvolve os próprios filtros sobre o que é ou não interessante.
Essas verdadeiras peneiras pessoais (nós, em última instância) decidem o que vamos ver ou ouvir. Há pessoas bastante alheias que não prestam atenção em muita coisa. Há as que escolhem olhar o mundo como quem visita um museu ou assiste a um filme. Há as que vêem o mundo pela tela da TV, as que ignoram o céu, os cenários, as pessoas, os fatos. Há as que querem saber tudo, sorvem as informações como uma bebida deliciosa. Há aquelas que só aprendem o que já sabem, nem querem conhecer outras naturezas ou pontos de vista. De qualquer maneira, esses filtros é que nos fazem únicos, uma vez que não há dois iguais.
Quando a gente vai para a cama dormir (ou cochilar), toma um banho ou apenas senta para relaxar, o nosso cérebro reconhece que houve uma pausa de aquisição de informações e começa a botar ordem em tudo o que acumulou durante o dia. As sinapses começam a trabalhar para guardar todas as coisas em seus devidos lugares, senão a gente não consegue resgatar as informações depois pela memória.
Pois justamente durante o processo de reorganização é que acontece, às vezes, do cérebro guardar coisas em lugares diferentes do esperado e fazer conexões bizarras entre assuntos. Nesse ponto, acontece uma recombinação de informações e é quando gente tem idéias originais, coisas banais sob ângulos inusitados.
Isso é tão forte em mim, que não consigo dormir sem papel e caneta ao lado da cama. O momento em que estou quase dormindo é quando tenho mais idéias (inclusive sobre colunas). Recombino informações acumuladas há anos, dias ou horas em um texto; junto referências visuais de muitas fontes distintas para pintar um quadro; reúno o cenário de um livro, um recorte de jornal e o comportamento de um cachorro na rua para desenvolver um método.
Então, a criatividade precisa de duas coisas essenciais para acontecer: informações e relaxamento. Precisamos de muitas informações para recombinar, senão não há combustível para a enriquecer mistura. Por isso, a gente precisa ler, ver, ouvir, viver muito, alargar o filtro ao máximo possível. Mas também precisamos de tempo para cozinhar o caldo.
Vejo muito trabalho pobre em termos de criatividade porque o sujeito não reúne informações suficientes. Cultura geral e criatividade são como trigo e pão, um não existe sem o outro. Se a pessoa não lê, mal ouve, e, principalmente, não é curiosa, não há como ser criativa. Se o indivíduo passa o dia como quem vive uma maratona e não relaxa nunca, também não tem jeito.
Por falta de tempo, as pessoas acabam lendo pouco, vendo pouco, vivendo mal, sem relaxar nunca. O resultado é o que a gente está vendo aí. Ou não. Tenho certeza que tem um povo que nem reparou...
COMENTÁRIOSLucilia: Eu vejo que estamos vivendo a época do "fast-food"... A criatividade precisa de tempo para acontecer, como você disse. Mas...Que cliente irá te pagar pelo tempo que voce gasta desenvolvendo um layout diferenciado, quando existem tantos templates para todo tipo de coisa? Qual aluno irá gastar seu tempo fazendo um trabalho escolar criativo, se o prazo de entrega é "pra ontem"? Que mãe irá fazer aquele almoço delicioso e nutritivo com direito a sobremesa todo dia, se ela precisa também ser a executiva, a mulher poderosa, cumprindo todos os horarios? Me sinto frustrada, as vezes... como profissional, como professora, como pessoa...talvez por eu ser "antiga" (da era "pré-tecnologica") ....Estou como no anuncio de sandalias "EU QUERO MENOS..." Parabéns, Lygia, por mais este excelente artigo!saulo venancio: Olá Ligia, Primeiro , parabéns pelas colunas, segundo gostaria de dar minha opinião. Como engenheiro há pouco tempo me frustrava com a não engenharia aplicada na vida real. No entanto, recentemente venho percebendo, e seu post veio bem a calhar, que na realidade mesmo não reinventando a roda, devido ao tempo escasso que temos, aprendemos sim. É um aprendizado que vem apenas nos momentos de pressão por resultados, onde a criatividade das resoluções dos problemas, quando as perguntas afloram e nos deixam indagando por muito e muito tempo nos fazem ter aquele insight maravilhoso. Que no fim nada mais é que o uso "intuitivo" de informações acumuladas. No fim, mesmo não "aprendendo" profundamente de alguma forma isso nos virá a mente no momento apropriado. No curto prazo não aprendemos, mas no longo, tenho certeza que sim. Abraços.Jacqueline Keller: Querida Lígia, obrigada pela coluna de hoje! Na última quinta tentei explicar para meus alunos como é que podemos ser mais criativos e uma das coisas que citei foi que informação variada é fundamental e você contemplou muito melhor o que tentei lhes dizer. Mandei sua coluna para eles! Grande beijo da sua admiradora de sempre. Jacque