Ligia Fascioni ligia@ligiafascioni.com.br / www.ligiafascioni.com.br Lígia Fascioni é Engenheira Eletricista, Mestre em Automação e Controle Industrial, Pós-graduada em Marketing e Doutora em Gestão Integrada do Design. Autora do livro "Quem sua empresa pensa que é?", é consultora empresarial na área de gestão da identidade corporativa
O design da bagunça
19/03/08
Estou escrevendo alguns artigos para um congresso e resolvi estudar os currículos dos cursos de design oferecidos no país, incluindo suas diversas habilitações. Não é difícil; exceto por algumas poucas faculdades, todos divulgam em seus sites a estrutura curricular (nota: no meio da navegação, achei por acaso uma escola de administração que esconde a grade de disciplinas com medo de ser copiada. Surreal? Inacreditável? E a escola é daqui mesmo…).
Ainda que as habilitações sejam diversas (moda, produto, gráfico, webdesign, editorial, mobiliário, mídias eletrônicas, jóias, etc), fiquei pasma com a diversidade de currículos. Não há nem mesmo uma grade básica de conhecimentos que todos precisem aprender. Para se ter uma idéia, menos de 30% dos 235 cursos de graduação em design oferecidos no Brasil contam com a disciplina gestão do design. Em cursos de design de produto, por exemplo, não encontrei dois com mais de 50% de disciplinas comuns a ambos (excetos os oferecidos pela mesma rede de faculdades).
Isso me leva a lamentar um fato que acabei sabendo no decorrer da pesquisa: uma faculdade de design instalada em Joinville teve recentemente suas portas fechadas (só descobri perguntando para um amigo que mora e trabalha lá, pois o site simplesmente saiu do ar sem dar maiores satisfações). Pois ele me contou que os alunos pêgos de surpresa no penúltimo semestre, ao tentarem concluir o curso em outra faculdade, tiveram uma notícia desagradável: descobriram que teriam que cursar mais três anos para alinhar as disciplinas. Não é revoltante? Como é os currículos podem ser tão diversos em um mesmo curso, na mesma habilitação, na mesma cidade?
Imagino que algum tipo de variação aconteça na maioria das graduações e com dentistas e advogados não seja diferente. Ainda que engenheiros possam sofrer com mudanças de currículos, todas as habilitações, sem exceção, precisam estudar cálculo integral e física, por exemplo, além de álgebra e mecânica dos fluidos. É básico. Por que é que nos cursos de design não acontece assim também?
Dá impressão que cada faculdade escolhe o que gosta mais ou o que acha mais interessante e manda ver. Se o curso explodir, paciência, os alunos que paguem. É claro que não deve ser assim, tenho certeza de que há um trabalho sério que fundamenta cada escolha, senão o MEC não iria aprovar, mas talvez as diretivas sejam excessivamente genéricas. Também não dá para dizer que um curso seja melhor que outro apenas olhando as disciplinas – há muita gente séria tentando fazer o melhor que pode. Mas como conviver com tantas e tão gritantes diferenças em formações que deveriam ter muito mais pontos em comum?
O preocupante é que você não sabe se o designer que está contratando conhece gestalt ou semiótica, já que nem todos os currículos incluem esses tópicos. Há cursos onde não se estuda nem mesmo teoria das cores.
Que fique bem claro que não estou defendendo que os currículos sejam engessados; há que se respeitar as necessidades e a realidade de cada região, de cada mercado, da intenção e dos objetivos de cada projeto pedagógico. Mesmo assim, não faz sentido que duas habilitações com o mesmo nome, ambas autorizadas pelo MEC, tenham mais de seis semestres de disciplinas diferentes em seus currículos, concorda?
Eis aí uma boa questão para os profissionais de design se debruçarem. Como regulamentar uma profissão tão heterogênea na formação de seus profissionais? Como organizar essa bagunça sem nivelar por baixo e nem prejudicar os estudantes?
A questão está lançada…
COMENTÁRIOSAndré Carvalho: prezada ligia,
concordo com você. são necessárias muitas mudanças nas grades dos cursos de design, e um curriculo com algumas matérias básicas similares, com certeza fortaleceria os diplomas.
estou finalizando um mestrado em design, e vejo que essa questão aparece de vez em quando nas conversas com colegas do mestrado, já que praticamente todos dão aula de design em faculdades de sp. mesmo em sp as diferenças entre os cursos são muito grandes, nem sequer parece que são cursos que darão ao aluno no final o mesmo título. porém, o mercado universitário hoje está muito mais vinculado a lucro do que qualidade de ensino, e isso atrapalha criar uma grade curricular que obrigue os donos de faculdade a contratarem uma maior variedade de professores. eu acho que uma solução seria que as universidades e faculdades públicas de maior projeção começassem a unificar uma parte do currículo, não para engessá-lo é claro, mas para criar uma base comum a todas, e assim, forças as particulares a fazer o mesmo. mas eu acho que é mais fácil o sertão virar mar do que isso acontecer do jeito que as coisas andam ultimamente.Barbara Duarte: Ligia, acho que seu ponto de vista é interessante, principalmente quando lembramos que você escreve um livro de título "Quem sua empresa pensa que é?". A educação do designer não é um problema local, ou brasileiro (quer dizer, que revela uma inadequação particular do pensamento brasileiro ao lidar com o design). É questão de se pensar como a identidade do designer está pulverizada. Afinal, o que os cursos de design pensam que são? Acho essa uma pergunta importante, pois só poderemos pensar nas contribuições que a área pode dar à nossa realidade a partir daí. Particularmente, não sei como podemos nos definir como designers tão categoricamente quando nossa formação é tão desarticulada. Ser ou não ciência exata não exime uma área de possuir paradigmas.Thiago Fonseca Barros: Levantando um outro ponto-de-vista, eu concordo com o dito pela Caroline com respeito à qualidade dos cursos. Mas também acredito que uma boa parte da responsabilidade da formação fica por conta do próprio aluno, pois a faculdade não tem como função principal a mesma do ensino médio e fundamental onde o aluno resolve temas abrangentes, porém pontuais. A faculdade não é para ser assim, pelo contrário, ela deve levantar questões e o aluno colher informações de vários meios para formar a sua própria opininião acerca de um determinado tema.
Se o aluno não buscar conhecimentos além dos passados pela faculdade, que profissional ele será? Será, no máximo, como seus próprios professores e limitado aos conhecimentos que ele adquiriu durante o curso.Lígia Fascioni: Caroline,
Sou grande admiradora de Lucy Niemeyer e Rafael Cardoso e concordo plenamente com você sobre a questão da qualidade. Também não acho que todos os currículos devam ser iguais (não foi isso que defendi no artigo). É que tenho me dedicado profissionalmente a mostrar aos empresários a diferença entre os seus "sobrinhos que sabem mexer no Corel" e um designer de verdade. Mas não tenho como defender um profissional que desconhece os fundamentos básicos da teoria das cores porque isso não constava da matriz curricular do seu curso. Esse é o ponto para o qual quero chamar atenção.
Além disso, sendo o design uma profissão tão multidisciplinar, sempre imaginei que a inclusão no debate de profissionais de outras aulas fosse benéfico e bem-vindo (você mesma defendeu brilhantemente a valorização da diversidade na sua argumentação).
De qualquer maneira, não se preocupe. Nunca me intitulei e nem tenho a pretensão de ser designer, minha intenção é apenas contribuir para uma área de conhecimento à qual tenho me dedicado a estudar, que é a gestão do design.
A propósito: você sabia que nos maiores escritórios de design do mundo, como o IDEO, designers e engenheiros (além de profissionais de outras formações) trabalham em harmonia, cada um contribuindo com o que sabe?
Abraços e obrigada por contribuir com a discussão,
Lígia Fascioni | ligia@ligiafascioni.com.brMarcelo Kammer: Realmente é uma bagunça Lígia, mas, o que dizer de uma instituição que monta seu curso de Design baseada nas habilidades (ou capacidade de enrolação) dos poucos professores disponíveis no cidade? Ou outra que muda a ênfase do curso quando muda o prefeito? Ainda.... uma que tem mais de 3000 livros retirados de sua biblioteca por que estes não foram pagos e os alunos vendo os livros sendo levados por homens de terno, gravata e óculos escuros.... mais loucuras do que vemos num filme do David Linch!Caroline Schmitz: ah só mais uma coisa... sem protecionismos à classe... mas porque engenheiros, arquitetos, publicitários e afins tem a mania de se meter na nossa profissão, sendo que não nos metemos na de vocês.
Será falta de união da classe ou apenas profissionais que pararam na profissão errada e agora querem ser designers?
Se temos ou não problemas na formação ou na profissão deve a nós mesmos (designers) debatê-las.
E sobre a regulamentação, na maioria dos encontros de estudantes e profissionais de design a maioria se apresenta contra.
Nós, como classe, queremos sim sermos reconhecidos e valorizados, mas será que a regulamentação é o meio para este fim? Tenho minhas dúvidas.... (bom este é um tema para um próximo debate)Caroline Schmitz: 1o ponto... o design não é uma disciplina exata assim como engenharia, portanto não se pode comparar. Além disso, trata-se de uma ciência social aplicada, e por sua origem, multidisciplinar.
Por se tratar de um campo amplo, cada curso opta por disciplinas que atendam melhor ao mercado de sua região.
A falta de professores, afinal são poucos os designers que seguem a carreira acadêmica (fato que têm mudado lentamente), faz com que os poucos que seguem este caminho e por consequência, os criadores dos cursos, optem por uma grade coerente com seus conhecimentos.
Portanto, antes de criticar o currículos dos cursos, acho que você deveria estudar um pouco sobre a história do design no brasil (recomendo a leitura de Lucy Niemeyer e Rafael Cardoso). Assim, ficará mais simples de entender a atual situação do ensino do design.
Na minha humilde opnião, o mais importante a ser debatido não é a disparidade entre os cursos e sim a qualidade deles. A diversidade é saudável, assim teremos profissionais com diferentes habilidades.
Afinal queremos designers generalistas ou especialistas.. depende do ponto de vista. Na minha opnião uma formação generalista só prejudica o aluno, pois ele sairá da universidade um tolo que acha que sabe de tudo, mas na verdade não saberá de nada. O curso da UFSC, do qual me formei é assim, e está caminhando para uma formação específica , voltada para o mercado da região com o novo currículo que deverá ser implantado em breve. Afinal do que vale formar um profissional que não terá empregos, pense!
Com uma ressalva! O estudante tem a obrigação de procurar o curso com o currículo que mais lhe interessa, com cursos com currículos diversos, seu leque será ainda maior.
Agora a discussão sobre a qualidade do ensino já é outra história e essa realmente que nos interessa. Mas esta fica para outro dia....